quinta-feira, 3 de abril de 2014

Aposta na qualidade

Como muitos dos meus leitores, sou de tempos em que nem se pensava em supermercados. Nem sequer havia o conceito de comprar muita variedade de coisas no mesmo lugar. Na minha cidade insular de criança, comprava-se a carne no talho (a que os mais velhos ainda chamavam açougue) e o peixe no mercado do peixe ou ao vendilhão que, com dois cestos em extremo e outro de grossa vara ao ombro, nos batia à porta ou alertava com o seu “é pêxe gróde e frasque”. Fruta, hortaliça e legumes eram nas barracas (lá não se dizia lugares de hortaliça) ou no mercado, mas abrindo este só ao fim de semana. Pão era na padaria mas, mais vulgarmente, era deixado na saca pendurada da mão da porta (um micaelense não sabe o que é puxador). Também batia à porta o leiteiro. Sabão e coisas de limpeza, na drogaria.

E tudo o mais de manducáveis? Nas mercearias e nos armazéns de secos e molhados. Estes, que vendiam a grosso, eram para as compras do mês, entregues em casa por marçano a puxar carroça de mão, que rapaz também tem serventia para tracção animal. Para o dia a dia, a mercearia, com a inevitável caderneta. Já nos anos 60, eu jovem casado em Lisboa, tinha como merceeiro o Sr. Ramos, que nunca me deixava liquidar mensalmente a conta da caderneta. Tinha de ficar sempre qualquer coisa porque assim, dizia ele, eu devedor tinha de continuar cliente.

Na minha cidade havia muitas mercearias, mas só uma era especial, a Zenite. O nosso merceeiro não se ofendia de se ir especialmente à Zenite, porque só lá se encontrava um bom vinho do Porto, um ananás especial, bons chocolates, outras coisas para ocasiões especiais. Chamávamos à Zenite uma mercearia fina, como em Lisboa havia a Jerónimo Martins e outras.

Lembrei-me de tudo isto porque há dias petisquei numa dessas mercearias que vão aparecendo muito por aí. Como não me repugna fazer publicidade quando é merecida, falo da Mercearia 29, no Bairro de S. Gonçalo, junto à Marginal, em Carcavelos.

Não é uma casa de gourmet e não o quer ser, pela conotação de coisa cara que muitas vezes se associa a essa qualificação. Faz bem, tanto quanto vejo pela falência sucessiva de duas “gourmet” no meu bairro, a Quinta Grande em Alfragide. Apesar de ser uma zona de classe média-alta, as pessoas reservam as compras de alto valor e qualidade para as boas lojas especializadas. O que querem na sua zona residencial, de dormitório, é uma coisa onde comprem o trivial, mas de boa qualidade e com um toque de qualidade extra. Uma outra mercearia que abriu na minha zona como “gourmet” reconverteu-se sensatamente a este tipo de loja em que se compra do mais simples ao mais especial, incluindo carne fresca de muito boa qualidade.

Neste sentido, lembro-me da mercearia fina. Não é loja de "gourmet", mas o responsável deve ser (e é) "gourmet". A Mercearia 29 de que agora dou notícia tem de tudo, mas tudo com qualquer coisa de valor: a fruta e os legumes vindos directamente de produtores seleccionados, uma gama limitada de produtos alimentares de tipo industrial mas de qualidade comprovada, porque nada se vende lá sem prova exigente da responsável, uma boa garrafeira com vinhos de boa relação qualidade-preço e uma boa oferta de produtos tradicionais e regionais (doçaria, compotas, queijos, etc.). Ao fim da tarde, pode-se petiscar muito disto, mais salgados de muito boa qualidade e uma tábua de queijos e enchidos, com vinho a copo. Recomendo.

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