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domingo, 1 de setembro de 2013

Feitos turistas em Lisboa

Este mês de Agosto a fanar-se foi de férias de crise, em casa. Como protesto, resolvemos ser turistas de dentro, nesta última semana, calções, Ray Ban, panamá, convite a fazer de turista para carteirista, que ainda tenho atravessado na garganta. Mas passemos ao demais, às coisas boas. Ficam aqui só as comidas, sem falar das coisas turísticas à margem, como voltar anos atrás a ver coisas tão vistas como a Sé (a precisar urgentemente de limpeza) e o castelo, mas também coisas novas como o arco da R. Augusta ou a magnífica exposição “Encomenda prodigiosa”, no museu da Igreja de S. Roque (falta-nos ver a parte das Janelas Verdes). 

1. Mas vou ficar pelas experiências prandiais destes passeios pela baixa, feitos turistas. A primeira foi no Ministerium, na ala nascente do Terreiro do Paço, um restaurante despretensioso de bifes e petiscos, creio que a cargo de Diogo Noronha, antes Pedro e o Lobo. Ao lado, da parte norte, o Museu da Cerveja, do qual, na net, não encontro informação relevante. Do outro lado, cheio, outro da cadeia Nosolo Italia, presumo que igual ao de Belém, onde vou, com gosto, de vez em quando. Defronte um restaurante com uma ementa desinteressante, o Aura, mais o novo “Chefe Cordeiro”, que certamente merece visita um dia destes.

Os restaurantes de petiscos são hoje quase uma praga. Nestes dias de passeio pela baixa verificámo-lo. Em regra, são da mais confrangedora banalidade. Exceptuam-se os dos chefes conhecidos, Sobral, antes Aroldi, Stanisic, agora Cordeiro também no Terreiro do Paço, mesmo Avillez que, com isto e empadas de centro comercial, sustenta o Belcanto. Este Ministerium é francamente recomendável, com a reserva que farei adiante.

Ficámos pela secção “para picar”. O picapau vinha muito bom, com um molho de mostarda, alho, cominhos, salsa e louro, mas fiquei a suspeitar de que também um pouco de leite de coco. Picles, que não respeitam a provável origem do prato (carne à feira das Mercês) mas que hoje o identificam e o uso faz a regra. Muito bem feitas as bochechas de porco (em bocado visível mas a derreter-se) com gnocchi e cebolinhas glaceada e outro petisco de polvo à Bulhão Pato, com um molho emulsionado de azeite, coentros e sumo de limão (para mim um pouco em excesso). A terminar, um bom leite creme e uma muito boa mousse de chocolate sobre geleia de laranja e coberta com esferas crocantes (arroz tufado e caramelizado?).

Tínhamos de marcar um jantar para mais pessoas, sexta-feira e, bem impressionados, com ajuda do local, voltámos a lá ir. Comemos o mesmo e mais outros petiscos. Que diferença. Tudo com pior confecção, sabores menos apurados. Por exemplo, a bochecha completamente desfeita. Percebe-se que uma noite de fim de semana em época turística não seja muito favorável à manutenção da qualidade de um restaurante, mas o problema é do restaurante, não do cliente.

2. Noutro dia, ao almoço, andámos pelo Bairro Alto. Há muito que a minha mulher tem predilecção pelos dois restaurantes de irmãos, o Sinal Vermelho ao almoço e o Lisboa à Noite, ao jantar. Não conhecia. O Sinal Vermelho não é daqueles restaurantes que me faça lá ir de propósito, como não faz nenhum de comida caseira, que cozinho bem em casa. Mas é certamente um local onde levaria um amigo estrangeiro que quisesse provar genuína comida portuguesa e muito bem feita, com grande variedade de escolha numa lista bem longa.

Só provámos dois pratos mas que, se significativos do conjunto, tornam o restaurante muito recomendável: magusto de bacalhau assado com migas de broa e couve portuguesa, tudo impecável, e almôndegas de vitela com puré de batata caseiro e couve lombarda, exemplo de velha cozinha caseira. Ficámos na esplanada, virando da R. das Gáveas para a Tv. do Poço da Cidade. Do outro lado, um outro restaurante sem um único cliente durante todo o tempo, enquanto que o Sinal Vermelho tinha bem duas dúzias, em almoço de Agosto. Disseram-me que são efeitos já bem notórios do hábito de turistas de consulta ao TripAdvisor ou ao LifeCooler.

3. Sexta feira ao jantar foi outra conversa, o menu de marisco do Assinatura. Vou começando a ser cliente habitual, mas creio que nunca comi lá tão bem. É pena que já não possa recomendar, porque o menu terminou nesse dia. Mas para que fique registo: 
  • Mimo do chefe – seviche de bacalhau com sálvia e hortelã da ribeira, suspiro preto com recheio de pasta de anchova, chutney de figo com uma haste de massa filo com alheira. 
  • Ostras, dashi (caldo leve de peixe, no Japão) português (? eu tenho uma versão portuguesa, mas cada um sabe do seu e eu sou amador), pérolas de tapioca, tiras finas de alga combu e pingos de iogurte fumado (o uso de fumados, muito bons, começa a ser uma marca do Assinatura). 
  • Creme de maçã acidulada, tiras de mação crua, picles suaves de cenoura, cebola e funcho, pingos de maionese com “saté” e açafrão, pastéis de recheio de santola.
  • Lingueirão, mais o bolhão e o pato (um achado): como bolhão, tostas muito finas com azeite e alho; como pato, lâminas finas de moelas de pato confitadas. Molho em duas partes, uma redução de pato e um creme com óleo de trufa.
  • O marisco e o arroz ( o mais convencional dos pratos, por isto o que me fez descer a nota em 0,5 valores, embora de confecção impecável): tamboril (para mim escusado), camarão, lagostim e lagosta, cozidos e envolvidos num molho de manteiga, acompanhados com arroz de bivalves segundo as melhores regras.
  • Pensei que a sobremesa fugiria ao tema mariscos. Nada disso. Gelado de camarão, “hóstias” fritas de camarão, figos, bolo húmido de chocolate.

Sou avezado do Assinatura e sempre saí de lá recompensado pelo jantar, mas creio que esta vez ultrapassou todas. João Sá promete e é bom sucessor de Henrique Mouro (a propósito, vi que o Tavares ainda está em remodelação). Dado que só conhecia – e não directamente – a experiência de João Sá no G-spot, com um género totalmente diferente de cozinha, mais “juvenil” ou “desportiva”, tinha curiosidade do que seria no Assinatura. Vivamente recomendável.

domingo, 30 de junho de 2013

Assinei

Henrique Mouro deixou o Assinatura, para novas experiências não reveladas. É um dos meus cozinheiros/chefes preferidos. Muito boa técnica, boa escolha de produtos, grande saber e gosto na combinação de sabores e texturas e uma criatividade elegante e simples, sem  extravagâncias ou rodriguinhos. Outra razão muito importante para que o Assinatura seja um dos meus restaurantes favoritos – e agora em época de crise – é a sua quase imbatível relação qualidade-preço. Por exemplo, um menu de três pratos ao almoço (entre as opções do menu completo de almoço) e um copo de vinho fica por 20 €.

O Assinatura costuma comemorar os seus aniversários com alguma gentileza para com os assinantes da sua newsletter. Este ano, homenageando Henrique Mouro, é uma selecção das melhores criações suas durante estes três anos. O menu, de sete pratos, custa 53 €, mas só 39 € para assinantes – coisa simples de se fazer “online”. Com duas flutes de espumante Filipa Pato, um copo (não simbólico, como às vezes se vê) de Dão Quinta de S. Miguel, um refrigerante e cafés, pagámos os dois 100 €. Nada mau. Atenção que termina já no dia 4!

O menu é fixo e surpresa:
  • Flor de rodelas finas de curgete recheada com caracois e rodeada por brunesa de tomate salteado;
  • Sardinha gratinada com queijo de S. Jorge sobre uma minitosta fina e com salada de morangos e ervas bebé;
  • Tentáculos de polvo fumado a quente, sobre puré de maçã e azedas (o nº 1, na nossa classificação);
  • Brindade com tomate chucha confitado (que já conhecíamos e de que, na sua simplicidade mas excelente confecção, tínhamos gostado muito);
  • Lulas recheadas com carnes do cozido, servidas com brunesa dos legumes do cozido e seu caldo (o nosso nº 2) – ver a foto acima;
  • Chocolates em três texturas sobre base de brownie e com uma avelã caramelizada;
  • Trio de pequenas porções de queijo (vaca curado, cabra fresco e terrincho) sobre riscado de doce de abóbora.
Tudo tecnicamente impecável, pela mão do chefe executivo Pedro Rezende Pereira, que se mantém no Assinatura. 

Henrique Mouro já foi substituído pelo jovem chefe João Sá, até agora no G-Spot em Sintra. Nunca fui ao G-Spot e não conheço a sua cozinha. Dizem-me que não é muito inventiva, o que me pareceu comprovado por uma ementa que vi. Isto não quer dizer nada, porque os tempos não vão para altas cavalarias gastronómicas. Além disso, o próprio Henrique Mouro só deu mostras da sua alta capacidade quando teve mãos livres no Assinatura.

A ambos, Henrique Mouro e João Sá, votos de grande êxito na nova fase da sua vida profissional.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Aniversário

Passou ontem o segundo aniversário do Assinatura, um dos meus restaurantes prediletos, na interseção importante das linhas de qualidade e preço (e um dos melhores serviços de mesa de Lisboa, mesmo em comparação com restaurantes estrelados e muito mais caros). Henrique Mouro, muito simpaticamente, convidou-me ontem para jantar na sua mesa, a celebrar o acontecimento.

Não pude. Tinha outro acontecimento também memorável, o doutoramento honoris causa pela minha universidade, com organização a meu cargo, de um dos mais notáveis cidadãos portugueses, Rui Nabeiro. Aproveito para dizer que, não conhecendo o Sr. Nabeiro, mas tendo tido de o receber e conversar bastante com ele, fiquei com a ideia forte de que é o que hoje melhor se pode dizer de uma pessoa: é um "homem bom".

Só perco por um dia. Hoje é dia de festa privada muito importante, e lá irei ao Assinatura. Tudo isto para recomendar que lá vão (não hoje, que quero estar recatadamente com a morena). Vale a pena - desculpem a rima.